Lendo o conto de Clarice Lispector chamado “A Galinha” eu me impressionei com como uma história tão casual pode despertar reflexões profundas que nos levam a certezas contundentes. Mas assim é Clarice: ela mexe comigo. O que ela escreve deve ser sempre relido, pois a primeira leitura é paralisante. É na segunda leitura que ocorre o deleite. Do conto “A Galinha” surgiu em mim esta reflexão:
Para os sem objetivo
É certo que o simples existir não nos torna especiais. Nem imortais. A morte, cedo ou tarde, virá para todos. É verdade. Por isso o fazer-se especial durante a existência é o que nos torna imortais – nas recordações e nas saudades dos outros. É preciso ter o cuidado de não ser somente mais um. Antes de mim já vieram milhares de milhares, e depois de mim, o infinito é o limite (ou o apocalipse). Portanto coragem é pungente – a coragem de não me fazer somente mais uma na multidão. Se eu for imortal pelo menos por mais uma vida – a de quem se lembrar de mim e sentir saudades de mim – já valeu o esforço. Não quero ser a “galinha” da vez e resumir o meu existir numa morte pela (ou para) a sobrevivência alheia.
Ana Paula Peloso e Silva Matos
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